sábado, 27 de junho de 2009

The Unicorns: mais que cavalos

Existem bandas que, mesmo com a qualidade e sucesso, deixam apenas um disco de herança. Podemos nos lamentar, já que poderíamos ouvir mais (bons) frutos daquela banda, mas talvez o fato de ter apenas um disco é que faz (ou contribui) para a banda ser tão boa (imagine o status do Interpol, se tivesse acabado após o primeiro CD).
O Unicorns é uma dessas bandas. E melhor do que pensar no que eles poderiam ter feito é pensar nas coisas boas que fizeram - ou na coisa boa, chamada Who Will Cut Our Hair When We're Gone? e lançada em 2003.

Capa de lápis de cor

Há um clima de gozação, de "nem aí" no Unicorns, que fica explícito em algumas letras metalinguísticas e irônicas. Em "Let's get known" eles dizem "Hey! let's get known /If we work real hard, we can buy some matching clothes / For our live shows" - e é só assistir algum vídeo para ver que eles realmente usam roupas combinando, todas em tom de rosa. Na engraçada "Child Star" eles simulam uma conversa entre uma estrela de cinema e um fã rancoroso, que desenvolvem uma relação de ódio de maneira extemamente infantil ("I hate you/ I hate you too"). Em "I was born (a unicorn)", Ginger e Diamonds fingem uma briga de egos: "We're never gonna stop/ I think I wanna stop/ We want one us/ I dont care I'll do push-ups/ I write the songs/ I write the songs/ You said I'm doing it wrong/ You are doing it wrong".



Roupas rosa-bebê combinando

Mas Who... não é filho único do Unicorns. Antes do disco responsável pela fama do grupo, eles haviam lançado pela própria gravadora (Caterpillars of the Community) Unicorns Are People Too, em março de 2003, CD limitado à 500 cópias e sem o baterista J'aime Tambeur. Nick e Alden dividiam todos os instrumentos - o que dá para notar em algumas músicas, em que um instrumento só entra quando outro termina, como se fosse gravado ao vivo.
Unicorns Are People Too é a prova da importância de um produtor no disco. Não só para lapidar as músicas, mas para ver potencial em algo ainda tão "rascunhado", para não dizer tosco. Estão lá as primeiras versões de "I Was Born (A Unicorn)", "Child Star", "Innoculate the Innocuous" e "Ghost Mountain", além das bacanas "I Do (It)", "Thunder & Lightning", "Evacuatin' Somethin' Warm", "52 Favorite Things" e "William, Clap Your Hands".
Ao invés de gastar minhas palavras falando sobre o disco, reproduzo e (mal) traduzo a ótima e precisa descrição que encontrei aqui: Unicorns Are People Too é "altamente recomendável; uma pequena, glitchy, lo-fi, boba exploração de jedi-pop que ameaça queimar a vista. Um deve-ouvir até mesmo para o mais casual fã de Unicorns, que gostou apenas remotamente de Who Will Cut Out Hair When We're Gone?". Resumindo: experimentação eletrônica + rock+ pop feita por gente com tempo de sobra e recursos de menos.


Jellybones versão diamante

Se Who Will Cut Our Hair When We're Gone? não era filho único, Unicorns Are People Too também tem um filho mais novo. Three Inches of Blood é um CD demo que eles distribuíam para donos de casas de shows. Mais tosco que seu sucessor, é também um exemplo das melhoras que uma produção pode fazer. Quando se escuta a primeira versão de "Jellybones", praticamente só teclado e bateria (e vocal), dá vontade de agradecer a quem a ajudou a transformá-la na música sensacional de Who... – mesmo que a versão tosca tenha seu charme, é bom que alguém tenha tirado o melhor daquilo. Three Inches of Blood tem muita coisa inútil, introduções e barulhos entre as músicas, talvez coisa de quem grava o primeiro disco e quer experimentar tudo o que pode. Mas tem também músicas boas que poderiam ser levadas para frente, como "Do The Knife Fight", não por acaso super agressiva e com uma guitarra ótima e marcante – além da bateria quebrada. Aliás, o vazio (se eu fosse chique diria "som cru") da demo vem não só da pós-produção fraca mas do fato que na época a banda era apenas Alden Penner (Alden Ginger) e Nicholas Thorburn (Nick "Neil" Diamonds), que dividiam a bateria e os vocais, enquanto o primeiro ficava com guitarra e baixo e o segundo com teclados.




Jellybones: boa mesmo antes de lapidada

Os unicórnios morreram em 2005, e eu não sei quem corta os cabelos deles agora. A justificativa foi que ser um unicórnio impossibilitava uma vida "normal" de ser humano. Mas a verdade era que Alden Ginger e Nick Diamonds nunca se deram bem (aquelas letras não eram só zoação), e após o rompimento Nick e Jaime, o baterista, continuaram o projeto de hip hop Th' Corn Gangg e formaram o Islands.




"Creeper" é bem legal, mas o Islands não é grande coisa. A banda lançou Return to the sea em 2006 e Arm's Way em 2008, e Jamie Thompson participou apenas do primeiro disco, já que saiu em maio de 2006 porque não fazia questão de estar numa banda de sucesso. Em setembro deste ano, o Islands irá lançar o terceiro disco, Vapours.


No outro lado da separação ficou Alden Ginger/Penner, que em 2007 formou com Brendan Reed (ex-Arcade Fire antes do sucesso e dono do site No Cars Go) o Clues. A banda lançou o primeiro CD em maio deste ano.

***

Todos os discos aqui citados estão disponíveis para download no recomendadíssimo Musique Indiegeste, que fez a gentileza de preparar um post especialmente para o Indieoteca.

Para mais informações sobre o Unicorns, incluindo links para download de singles e outras coisas raras, vá ao The Secret Unicorns Forum (shhh).

2 comentários:

Ortega disse...

jedi-pop, q bonito. fiquei curioso, vou ouvir depois q me recuperar da gripe suína q eu acho q acabei de pegar aqui em glastonbury /hipoconcria

Taís Oliveira disse...

também adorei o jedi-pop, vou usar demais.
e eu tb sou mega hipocondríaca, quase cometi uma gafe suína...