sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Sonic fucking youth: entrevista com Thurston Moore

(Esse post é pra mari, que meses atrás pediu nos comentários um post sobre a volta do Sonic Youth ao Brasil)

Hoje é véspera do Planeta Terra e faz exatamente uma semana que eu conversei com Thurston Moore, realizando o sonho de 10 em cada 10 indies desse mundo. Eu tentei, mas ele não quis ser meu amigo.
Vou colar aqui a matéria que saiu no JB de domingo. Quem não tiver coragem de encarar tanto texto, adianto que o Mark Ibold continua tocando com eles, mesmo com a volta do Pavement.

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O título do último disco, The eternal, já diz tudo. Unanimidade no rock alternativo, há 28 anos o Sonic Youth vem fazendo uma sinfonia de barulhos e experimentações que se estendem até aos instrumentos, frequentemente modificados pelos integrantes. Com o 16º disco lançado em junho, os já cinquentões se apresentam pela terceira vez no Brasil, como uma das atrações do festival Planeta Terra, que acontece dia 7 de novembro em São Paulo, e também traz outros dinossauros do rock, como Iggy & The Stooges e Primal Scream.

– Nós ainda não decidimos o repertório, mas imagino que vamos tocar nossas músicas novas, como estamos fazendo nos últimos shows, e outras músicas antigas, talvez umas duas do Daydream nation – especula Thurston Moore, guitarrista e vocalista da banda.

O último disco marca a volta da banda às gravadoras independentes: The eternal foi lançado pela Matador, depois de nove discos lançados pela Geffen. A mudança, segundo Moore, foi positiva, acrescentando que é “legal e interessante trabalhar com a Matador”.

O álbum é também o primeiro com a participação do baixista Mark Ibold, que começou a tocar com a banda em 2006, na turnê do disco Rather ripped, e agora é o quinto membro do Sonic Youth.

– É ótimo tocar com o Mark, ele é muito divertido e animado, adora conhecer as cidades a que vamos. Ele acorda às 6 da manhã e faz passeios de bicicleta ou procura lugares legais para comer. Mas não sei quais serão os planos dele em São Paulo, porque em um dia teremos ensaio, e no outro é o show, então será bem cansativo.

A anunciada volta do Pavement, antiga banda de Mark Ibold que foi um ícone nos anos 90, não significa um afastamento do baixista do Sonic Youth.

– Eles têm esses shows em 2010 que vão ter muita repercussão, mas Mark continua trabalhando com a gente – diz Moore.

Não é a primeira vez que o Sonic Youth trabalha com um quinto elemento. De 2000 a 2005, o quarteto (completado por Kim Gordon, voz, baixo e guitarra; Lee Ranaldo, guitarra e voz; e Steve Shelley, bateria) tinha a ajuda do músico Jim O'Rourke, que inclusive se apresentou com o grupo no último show no Brasil, em 2005. A mudança afeta a dinâmica e o som da banda.

– Isso permite que a Kim cante e toque mais, ancorada pelo baixo durante todo o set. Por muito tempo nós não tínhamos um baixo, um grave, quem fazia isso era o bumbo da bateria – explica Moore, já que agora Kim Gordon pode sair do baixo para tocar mais guitarra ou simplesmente cantar.

A postura indie e o som experimental do Sonic Youth fez com que muita gente estranhasse a participação recente da banda em um episódio do seriado Gossip girls, sobre jovens da elite de Manhattan. Moore diz que assiste o seriado por causa de sua filha adolescente, Coco, fruto de seu casamento com a companheira de banda Kim (os três já haviam tocado em um episódio da série Gilmore girls, em 2006).

– Eu sou muito influenciado por ela e pela cultura jovem, e gosto do seriado, acho muito engraçado na verdade. É interessante porque é um equilíbrio entre fantasia e realidade, eles têm bons atores jovens, ótimos personagens. É realmente engraçado porque eu cresci em Nova York e eu vejo os personagens indo do Brooklyn ao Upper East Side duas, três vezes ao dia. Eu não sei como eles fazem isso, é como se tivessem um tapete mágico – brinca Moore.

No episódio, Kim Gordon celebra o casamento de dois personagens da série, e a banda toca na cerimônia uma versão acústica de Star power, música feita em 1986, quando muitos dos fãs da série ainda nem eram nascidos. A banda aproveitou a aparição para lançar um single com a versão inédita da música, e também colocou à venda uma camiseta e um pôster de tiragem limitada de Star power. Mais lançamentos como este ainda não estão nos planos da banda.

– Talvez nós faremos mais coisas desse tipo. Fizemos muitos shows durante o verão e temos mais shows no inverno (do Hemisfério Norte), e após a turnê de The eternal irei focar no meu disco solo e numa editora de livros que estou criando.

O disco solo será o quarto de Moore; ele diz que está em processo de composição. Já a editora será lançada no ano que vem e vai se chamar Ecstatic Peace, mesmo nome do selo criado pelo guitarrista. O foco serão livros de arte.

– Sempre estive envolvido com isso, fazendo zines e publicações como um zine chamado Killer, que eu ainda faço. Também editei alguns livros em editoras maiores, e um dia me perguntaram se eu não gostaria de distribuir livros de arte. Claro que aceitei. Sempre estive muito envolvido com literatura, tanto quanto com a música.

Não só Moore passeia pelas letras, como também Lee Ranaldo, que já tem livros de poesia publicados. Kim Gordon também tem trabalhos extra-musicais, já tendo exibido e publicado alguns de seus trabalhos em artes plásticas, e pode ser uma das autoras com livros lançados pela Ecstatic Peace.

A participação mais recente de Moore no mundo dos livros foi em Grunge, obra que reúne fotos de Michael Lavine em torno de bandas e frequentadores da cena de Seattle. O guitarrista do Sonic Youth ficou responsável pelo prefácio e ganhou o nome na capa. Mas ele não acredita que exista um revival do grunge.

– Muitas pessoas estão sendo inspiradas pelo som das bandas daquela época, mas eu não acho que o grunge esteja voltando. As bandas novas podem fazer um som mais direto, como o Nirvana e Screaming Trees, mas não é uma volta. É como o punk rock, há sempre uma inspiração.

Completando quase três décadas de banda e ainda mantendo frescor e vitalidade nas composições – o último disco obteve uma das melhores posições que o grupo já teve nas paradas americanos – o Sonic Youth não acha que se reinventa a cada álbum.

– Não acho que exista essa necessidade de ter que se reinventar. O que nós fazemos é a expressão de um momento. Não sentimos esse tipo de pressão.

5 comentários:

mari disse...

Obrigada!
Realmente, Sonic fucking Youth!!

daigo oliva disse...

parabéns, ótima entrevista.

Dáila disse...

ahhh, é claro que ele virou seu amigo. Da próxima vez pede pra ele o telefone da Coco pra gente sair com ela.
Parabéns pela entrevista!! Amey (orgulho =])

Taís Oliveira disse...

obrigada Daigo, obrigada Dáila!

Mura (Murilo Faria) disse...

Parabéns pela entrevista.

São textos assim que deveriam sair nas revistas, e não aquele feijão com arroz usual.

Entrevistei o Ira Kaplan, do Yo La Tengo, para o meu blog (sim, o cara topou):
http://www.ciladamental.com/2009/08/nada.html

Deveriamos juntar estes ótimos trabalhos que estão rolando "na raça"e fazer um blog coletivo só de entrevistas.